Deixando à parte a questão religiosa ou de crenças, verificam-se alguns aspectos que logo asseguram a lata de lixo como o lugar ideal para essa mensagem.
Primeiramente, ao mencionar O dono da Companhia se atribui a propriedade da empresa a uma única pessoa. A Procter & Gamble é uma empresa de capital aberto com ações na NYSE - New York Stock Exchange sob o código PG. Portanto, ela não tem um dono: não pertence a uma única pessoa, mas a milhares de acionistas.
De acordo com Ship-offools.com, nenhum acionista individual detém mais de 0,5 % das ações da P&G, de modo que é impossível uma só pessoa influenciar a destinação dos lucros ou investimentos da empresa. Na página intitulada Ownership vê-se como se distribuem as ações da empresa.
Em nenhum momento o texto cita o nome do "dono" ou do presidente da empresa, mas cita o nome do suposto ou suposta entrevistadora.
Em segundo lugar, a Procter & Gamble é uma empresa de grande porte - uma das 20 maiores corporações dos EUA (Fortune, 2009) - e o seu principal executivo não chegou ao topo nem por acaso nem por ser pouco inteligente. Não dá pra acreditar que o presidente de uma grande corporação vá a programa de TV falar uma asneira dessas: que ele, ou a empresa que ele dirige, tem pacto com o satanás.
Uma das versões que circulam nos EUA diz que a suposta entrevista teria sido realizada com o President of Procter & gamble (sic). Aqui no Brasil, o tradutor/adaptador entendeu que o presidente é o dono da empresa e isso não é verdade. Ele é 'apenas' o empregado de maior graduação no organograma da empresa e presta contas aos acionistas.
A imprecisão ao mencionar que a grande parte nos lucros seria destinada à tal igreja indica desinformação do denunciante. Se ele sabe das coisas, por que não informar valores ou percentuais precisos? "Grande parte" significa quanto? Mais de cinquenta por cento dos lucros? Nenhum dos milhares de acionistas jamais desconfiou de tamanho desvio? Ou todos concordariam com ele?
Essa história surgiu nos EUA, mas em que canal de TV ou cidade teria sido feita tão devastadora declaração? Em que data? Nenhuma informação consistente. Nenhuma informação confiável sobre a cidade ou canal de TV. Será que a imprensa, sempre ávida por declarações surpreendentes, não deu nenhuma importância a uma notícia de tamanho significado?
Phil Donahue, o apresentador de TV que teria entrevistado o "dono" da P&G, já declarou, diversas vezes, que jamais entrevistou nenhum executivo dessa empresa.
A versão que circulou em 1999 nos EUA diz que o presidente da Procter & Gamble teria se apresentado não no programa de Phil Donahue, mas no Sally Jesse Raphael show que foi ao ar no dia 01 de março de 1998, um domingo. Ocorre que esse programa é transmitido de segunda a sexta-feira. A produção do programa, obviamente, nega a entrevista.
Mais uma mentira.
Mais uma versão: a entrevista teria sido realizada no programa de Merv Griffin no dia 16 de janeiro (sem indicação de ano). Outra data: 01 de março de 1994 no programa de Phil Donahue. Outras versões mencionam o programa 60 Minutes e o programa de Oprah Winfrey.
Todos eles negaram a realização da entrevista e ninguém viu a entrevista.
O fato é que nenhum presidente da Procter & Gamble jamais esteve em nenhum programa de TV para falar sobre esse assunto. Se fosse verdade, pelo menos um video teipe, do tipo VHS (gravado em casa) ou do tipo profissional, gravado na emissora, existiria mostrando a entrevista.
Por que não apareceu nenhuma fita? Porque ela não existe. A entrevista não se realizou.
A página Trademarks & Facts contém declarações negando que tenha havido entrevistas nos programas Sally Show, Jenny Jones e Phil Donahue.
Até agora, apresentaram-se, de um lado, alegações e mentiras. Do outro, fatos irrefutáveis e não passíveis de negação: não houve entrevista de funcionário da Procter Gamble na TV. Não há registros de supostas entrevistas sobre o tema.
E como essa lenda começou?
Tudo começou com uma "interpretação" do logotipo da empresa, criado em 1851. A idéia original era apresentar um rosto e treze estrelas representando as treze colônias que formaram os EUA. Essa marca, posta nos caixotes de vela e sabão, facilitava a identificação dos seus produtos. (V. evolução do logotipo em PROCTER & GAMBLE: STOP THE LIES!)
Em 1970, um espírito 'ilustrado' achou de interpretar o logotipo se baseando num joguinho de crianças: unir pontos para formar uma figura. A união das estrelas daria o número 666, o número da besta, do demônio, de satã.
Quem quiser se dar ao trabalho de unir as estrelas pode até conseguir desenhar alguns números como o oito e dois zeros: 800. O que isto significa? Palpite de uma centena pro jogo do bicho? Pode ser.
A Procter & Gamble foi criada em 1837 por William Procter e James Gamble e dedicava-se, inicialmente, à fabricação de sabão e de velas. Hoje, ela é uma multinacional com mais de 100 mil empregados e faturamento anual da ordem de 50 bilhões de dólares.
Conclusões:
* não havendo comprovação da entrevista nem das declarações a recomendação cristã é não passar adiante esse tipo de mensagem, pois ela contraria o Oitavo Mandamento: "Não levantarás falso testemunho", "Não Mentirás";
* a recomendação do bom senso: não dar crédito a esse tipo de mensagem que pede para passar adiante uma bobagem sem pé nem cabeça;
* quem divulga ou passa adiante uma história estapafúrdia como essa corre o sério risco de perder a credibilidade. A mensagem não possui fundamento factual, não possui fundamento lógico e, do ponto de vista religioso, é uma atitude condenável.
Igreja de satã.
Ao pesquisar no Google o termo "satan church" o resultado é frustrante.
Existe o domínio churchofsatan.com (atenção para o .COM de empresa comercial). Na lojinha do saite, pode-se comprar camisetas, livros vídeos e outros produtos da grife :))
O domínio churchofsatan.org remete para fcos.us onde também se encontra uma lojinha da grife :)