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Meia-Verdade


Amazônia: o mundo para todos
ou
A Internacionalização do Mundo.
O artigo de Cristóvão Buarque.

 

Entre os muitos boatos, as mensagens sobre a internacionalização da Amazônia são das que ressurgem com maior freqüência na internet brasileira. Agora, o tema vem associado ao artigo publicado pelo pernambucano Cristovam Buarque no jornal O Globo em 23 de outubro de 2000.

De início, havia a dúvida: o artigo seria mais um dos muitos textos apócrifos que circulam pela Internet ou é, realmente, de autoria do senador Cristovam Buarque?

Logo depois, surgiu mensagem reproduzindo o artigo e dizendo que

 

ESTA MATÉRIA FOI PUBLICADA NO NEW YORK TIMES / WASHINGTON POST, TODAY E NOS MAIORES JORNAIS DA EUROPA E JAPÃO. NO BRASIL ESTA MATÉRIA NÃO FOI PUBLICADA.

Em Alma Carioca o artigo é reproduzido sob o título A Internacionalização do Mundo e aí também encontra-se o seguinte comentário do autor:

Prezados (as) amigos (as),

Vem sendo distribuído pela internet por diversas pessoas, o que me surpreende agradavelmente, o artigo "A Internacionalização do Mundo".

O fato que deu origem a este artigo ocorreu em Nova York, nas salas de convenções do Hotel Hilton, durante o encontro do State of the World Forum, em Setembro de 2000.

Publiquei o artigo no Globo e no Correio Braziliense, logo depois. Mas de vez em quando surgem mudanças e informações adicionais nem sempre verdadeiras.

É falso que o artigo foi publicado no New York Times e em outros jornais estrangeiros. Se tivesse sido, eu tomaria certamente conhecimento através de algum amigo.

Em página da Assessoria de Comunicação Social do Ministério da Educação o artigo é reproduzido com a indicação de que ele também publicado no Diário da Tarde (MG) em 16 de fevereiro de 2003. O Blog do Cristovam também reproduz o artigo.

Ficam, portanto, desfeitas as dúvidas e caracterizada a mensagem no rol das meias-verdades (ou meias-mentiras :)

- o artigo é de autoria do senador Cristóvam Buarque,

- foi publicado no Brasil pelos jornais O Globo e Correio Braziliense e

- não foi publicado em jornais estrangeiros.

Em março de 2003, logo após os ataques dos EUA ao Iraque, surgiram na Internet algumas mensagens expondo preocupações quanto à invasão da Amazônia pelos Estados Unidos, não por causa de uma suposta reserva de petróleo lá existente, mas por conta das enormes reservas d'água doce- as maiores do Planeta.

Pelo menos por enquanto, não acreditamos existirem pretextos que sugiram um ataque dos sheriffs do Planeta (é assim que eles se vêem) à Amazônia brasileira para 'libertarem' a água e por duas razões:

1. a gang instalada na Casa Branca é ávida e tem ganância por petróleo e não por água. (Dizem que o presidente de lá demonstrou, em passado recente, grande 'interesse' por outro tipo de combustível, não fóssil, e o W do nome dele significa Walker :))

2. não existe carência de água nos EUA. Nesse ponto eles são auto-suficientes, o que não acontece com o petróleo: eles importam mais da metade de suas necessidades. (O Brasil importa cerca de 10 % do petróleo consumido no país.)

O perigo é essa camarilha, essa oil gang decidir mudar de ramo: do petróleo para a água :{

Os leitores comentam.

Veja também:

A Internacionalização da Amazônia, a página 76 de um livro inexistente e o FINRAF

O Brasil dividido

 

Veja também:

A Internacionalização da Amazônia, A página 76 de um livro inexistente e o FINRAF

Americanos são líderes da invasão estrangeira

Câmara quer debate sobre ameaça à soberania nacional na Amazônia

Condoleezza Rice já foi um petroleiro

De quem é a Amazónia, afinal?

Dossier Amazônia: anatomia de uma fraude

O Brasil dividido

O Globo global


Artigo original de autoria do senador Cristóvão Buarque.

 

01/11/2000
A Internacionalização do Mundo - Cristóvão Buarque

Fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia, durante um debate, nos Estados Unidos. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha. De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia.

Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.

Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, possa ser manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada.

Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola.

Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.


Este artigo foi publicado também no Correio Braziliense em outubro de 2000. O debate a que se refere o senador aconteceu em setembro do mesmo ano em um hotel de Nova York. Para outras informações, favor escrever para gabriel.reis@senado.gov.br

Escrito por: Cristovam Buarque - mensagem-cristovam@senado.gov.br

 

Nostradamuspróxima

 

 


 

 

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