Considerações
preliminares
Como tudo o que
é bom, a construção de uma bomba atômica,
por mais poderosa que ela seja, também deve se iniciar pelas
preliminares. Você sabe muito bem que se partir logo para os finalmentes
a sua parceira (ou parceiro, conforme a sua preferência) pode
sentir-se um pouco frustrada(o).
Por
que construir a sua própria bomba atômica?
As razões
são muitas e apresentamos, apenas, algumas delas.
Nestes tempos difíceis,
de muita violência, você deve aprender a se defender. Os
menos imaginosos, os medíocres, compram revólver, pistola,
espingarda, fuzis AK45, 47, granadas e metralhadoras. Coisas de amadores,
mesmo porque qualquer pessoa pode adquiri-los com a maior facilidade
no mercado negro. Nos outros mercados, os mercados branco, cinza e "technicolor"
pode ser um pouco mais caro, mas também é possível
comprá-los desde que se tenha bons agentes de intermediação.
Tudo fácil de mais.
Se você tem
competência para realizar algo com a suas próprias mãos,
por que não fazê-lo? Use o seu engenho, arte e imaginação
para construir um artefato poderoso e com mil e uma utilidades.
Ao fazer a sua própria
bomba atômica, você estará contribuindo para a paz
mundial, pois o seu poder de dissuasão irá aumentar significativamente.
Pelo menos isso é o que dizem os donos dos grandes arsenais nucleares.
A bomba não
é para ser usada. Ela é apenas um enfeite, um artifício,
um acessório decorativo, persuasivo e dissuasivo de grande poder.
A bomba não deve jamais ser usada, a menos que o seu uso se torne
imperativo diante de um inimigo metido a besta que, evidentemente, ainda
não tenha construído a sua, a dele, própria bomba.
Se o inimigo já
tiver construído a bomba dele, aí as coisas ficam um pouco
dificultosas, porque se a bomba dele for maior que a sua, você
pode se ferrar.
Como saber quem
tem a maior? É fácil. Você se lembra do seu tempo
de menino(a)? Pois é. Faz do mesmo jeito, uai!. Mostre a sua
peça e peça pra ele(a) mostrar a dele(a). Essa estratégia
sempre funciona.
Depois que você
tiver construído a sua bomba, peça a inscrição
no clube dos matadores atômicos onde já se encontram: Israel,
EUA, Índia, Paquistão, Reino Unido, França e Rússia.
Agora que está
plena e satisfatoriamente demonstrado que você também deve
possuir a sua própria bomba atômica, mãos à
obra.
Primeiros
passos
A primeira coisa
é obter a matéria prima. Recomenda-se o urânio 235.
O urânio 238 deve ser evitado, pois apesar de possuir apenas 3
graus de diferença na escala, ele costuma dar chabu. (Já
pensou, na hora H, você esperando um sonoro KABUUUMMM! e vem apenas
um fraco, e geralmente fedido, puf?)
Dê preferência
ao urânio enriquecido, mas antes procure saber como ele enriqueceu.
Se o enriquecimento dele ocorreu nos anos em que ele esteve em Brasília
ou ocupando cargos no governo, mude de fornecedor, pois trata-se de
enriquecimento ilícito. É urânio desonesto, muito
embora goze de grande prestígio nos meios políticos e
sociais.
Pegue 100 kg de
urânio 235 e divida em duas porções iguais. Coloque
cada uma das porções em um cilindro de metal, tampe e
reserve.
Use um pincel, atômico,
evidentemente, para identificar cada um dos cilindros. Em um deles escreva
"MASSA SUBCRÍTICA" e no outro escreva "MASSA
CRÍTICA".
A partir desse momento,
evite, a qualquer custo, a contaminação entre os dois
cilindros. As partículas da massa subcrítica somente
devem encontrar as partículas da massa crítica
no momento da explosão, depois de acionado o mecanismo fusível.
Tá certo, é um tabu que nem aquele do noivo que não
deve ver o vestido da noiva antes do casamento, mas tradição
é tradição e deve ser respeitada.
Em seguid....
O quê?!! Como
e onde conseguir o urânio? Putz, tenho que dizer tudo, é?
[Sinais de impaciência
e irritação. Pausa.]
Tá bem, vamos
lá.
Onde
adquirir a matéria prima
As melhores fontes
para adquirir a matéria prima são (pela ordem de preferência):
- ferro velho,
- organizações
terroristas,
- centros de pesquisas
e usinas nucleares.
Ferro velho.
Com um pouco de paciência, pode-se conseguir bom material radioativo
no ferro velho e os preços são muito convidativos. Confira
com cuidado e veja se o material está muito gasto ou descorado.
Verifique a textura, o sabor e a cor antes de fechar negócio.
Organizações
terroristas sempre pedem muito dinheiro para liberar porções
radioativas, mas dá pra fazer boas aquisições.
Centros de pesquisa
e usinas nucleares são bons fornecedores, mas seja
cauteloso porque os diretores e funcionários não gostam
muito quando desaparecem grandes quantidades de urânio de lá.
Eles ficam um pouco inquietos, sabe.
Se for usar material
oriundo de centros de pesquisa, seja exigente. Alguns centros fazem
pesquisa submetendo mosquitos e batatas à radiação,
de modo que é preciso saber se o material radioativo está
contaminado com larvas. Quanto mais contaminado com larvas, mais insetos
nos resultados, quer dizer, mais incertos os resultados.
Agora que você
já tem o urânio, vamos à segunda fase.
Segundos
passos: o mecanismo de detonação
Preste muita atenção
nesta parte. Um acidente pode ser fatal. Mantenha as faíscas
sob controle absoluto.
O mecanismo de detonação
é constituído de 100 kg de dinamite e mais o pavio. Em
vez da dinamite, pode-se usar pólvora de bombas de São
João, mas você vai precisar de 150 kg dessa pólvora.
Antes de perguntarem
como obter a dinamite ou a pólvora: compre a dinamite em lojas
especializadas em dinamite e a pólvora em lojas especializadas
em pólvora. Satisfeitos?
Em seguida, coloque
a dinamite ou a pólvora em um cilindro de metal, tampe e reserve.
Prepare o dispositivo
fusível, também conhecido como pavio detonador. Alguns
cientistas chamam o pavio detonador simplesmente de fusível e
os ignorantes chamam o fusível de fuzil.
Pois bem, não
use um fuzil, quer dizer, um pavio muito curto. Se pavio curto é
ruim em gente, imagine numa bomba atômica.
O maior perigo num
pavio pequeno é o lapso de tempo decorrido entre o momento de
acender e a hora de a bomba explodir. Se o tempo for muito curto, não
vai dar para você se afastar e ficar a uma distância segura
do artefato. Geralmente um metro de pavio é um bom tamanho.
Como você
bem sabe, todo o pavio que se preza tem duas extremidades. Coloque uma
das extremidades do pavio no recipiente contendo a dinamite (ou a pólvora).
Evite fumar charuto ou cachimbo durante essa operação.
Cigarros são permitidos, desde que o maço contenha aquelas
fotos de gente com câncer que o governo mandou botar pra ver se
amedronta os fumantes.
Coloque os três
cilindros - os dois de urânio e mais o de dinamite (ou de pólvora,
conforme a sua preferência) - sobre uma superfície plana
e prenda-os fortemente com fita durex. (Fique de olho na marca. Se não
for durex, esqueça.)
Pronto: sua bomba
está pronta para ser usada. Clique
aqui para apreciar o Diagrama 01. À primeira vista, ele pode
parecer meio esquisito, mas com o tempo você se acostuma.)
Onde
guardar a sua bomba atômica
Guarde-a em casa
num lugar accessível, porque, quando dela necessitar, você
vai encontrá-la logo ali bem pertinho e à sua disposição.
Vez por outra, faça uma inspeção pra ver se os
cilindros estão vazando. Preste atenção, porque
um nêutron descuidado aqui, um elétron displicente ali
e todo seu trabalho vai por água abaixo.
Em alguns países,
os donos de bombas nucleares fazem buracos no chão e lá
enterram as suas bombas, talqualmente os gatos depois de fazerem necessidades
fisiológicas. É uma boa alternativa.
Normas
de segurança
Muito embora o processo
de fabricação seja absolutamente seguro e isento de maiores
riscos, alguns cuidados devem ser tomados.
a) Lave sempre as
mãos com água e sabão após manusear o urânio.
Use a sua escova de dentes para remover o pó que insiste em se
abrigar sob as unhas. Se quiser usar luvas de segurança, compre
dessas de supermercados. São mais baratas.
b) Enquanto você
coloca o urânio nos dois cilindros, pode acontecer de subir uma
poeira radioativa resultante da desagregação do material.
Ao ser aspirada em grandes quantidades e metabolizada, essa poeirinha
pode, eventualmente, impedir o organismo de produzir as células
vermelhas do sangue.
Se você não
sabe, as células vermelhas servem para dar a cor de sangue ao
sangue e a ausência delas faz com que ele adquira cores variadas
e imprevisíveis. Mesmo considerando que as conseqüências
sejam meramente estéticas, fica esquisito se você sair
por aí, pegar uma bala perdida, sofrer um assalto e chegar no
pronto socorro sangrando um sangue rosa-choque ou azul-da-prússia.
Pega mal, pacas. O que vão pensar de você?
c) Para evitar a
inalação da poeira radioativa a melhor forma de prevenir
é prender a respiração durante o manuseio do urânio.
Pode ser que, no começo, você fique meio arroxeado devido
à falta de oxigênio nos pulmões, mas, com o tempo,
você se acostuma.
d) Para evitar que
grânulos de urânio se instalem no seu estômago, jamais
manuseie urânio enquanto estiver de estômago vazio.
e) Se, após
uma jornada de trabalho com o urânio, você se sentir um
pouco sereno, tonto ou sonolento isso pode ser conseqüência
da redução das células vermelhas do sangue. Para
ter certeza, vá até um laboratório e mande fazer
a contagem delas. Exija a contagem em todo o sangue e não apenas
em uma amostra. É mais preciso. Se for constatada a redução,
tome dois copos desses refrescos tipo framboesa, groselha ou morango
às refeições durante dois ou três dias.
f) Evite ficar muito
perto da bomba no momento da detonação. A temperatura
pode chegar a 100 milhões de graus centígrados e isso
pode provocar queimaduras. Se for absolutamente indispensável
acompanhar o processo de detonação, use protetor solar.
Considerações
finais
Avise os vizinhos
e malfeitores que você está bem armado. De que adianta
todo esse trabalho e investimento em alta tecnologia se ninguém
souber que você tem a força?
Os vizinhos vão
respeitar e temer: nada de roubar o limpador de pára-brisa do
seu carro, nada de pedir duas cebolas emprestadas e não pagar.
Prioridade no elevador e na entrega das correspondências, abatimento
nas taxas de condomínio, prioridade nas ruas mesmo com o sinal
vermelho são efeitos colaterais muito bem-vindos.
Tem mais: se o síndico
ou o prefeito quiser mandar fazer uma inspeção pra saber
se você guarda armas químicas em casa, destitua o síndico
ou o prefeito. Nunca é demais lembrar que você tem a bomba
e se você tem a bomba, tem a força!
Possuir a sua própria
bomba só traz vantagem. Desvantagens? Nenhuma. Quem sabe até
você ganha isenção no imposto de renda?
Mutações
genéticas são bem-vindas
Pessoas desinformadas
insistem em dizer que armas nucleares não devem ser usadas porque
elas podem produzir mutações genéticas. Isso é
verdade. Pode ocorrer uma ou outra mutação genética,
mas é necessário ver o lado positivo desses efeitos secundários
e evitar paranóia de ongueiro.
O grande cientista
inglês Charles Darwin (1809 - 1882) demonstrou cabalmente que
as mutações genéticas são bem vindas e foi
graças a elas que o homem se moldou à forma atual. O que
há a temer? Humanos com duas cabeças? Todos estamos cansados
de ouvir falar que duas cabeças pensam melhor que uma. Por que
não dar essa chance à evolução?
Para exemplificar
os perigos da fissão nuclear, menciona-se o desastre de Chernobil,
mas sabe quais as pessoas que correram mais depressa e conseguiram se
safar do desastre? As de três pernas!
Há quem trate
o assunto como uma piada de humor negro, mas o assunto é muito
sério. A aquisição de três pernas é
ou não uma mutação favorável à sobrevivência
da espécie humana nesses novos tempos em que o homem, e a mulher,
é claro devem aprender a viver em ambientes de elevada radioatividade?
Existem mais aspectos
positivos. Nos esportes, por exemplo, dá pra imaginar as próximas
olimpíadas e os novos recordes sendo batidos: 100 metros rasos
em 5 segundos, depois em 4 segundos, na seguinte em 2 segundos...
A
vida vai desaparecer da face da Terra?
Os pessimistas de
plantão, os derrotistas de primeira hora, chegam dizer que a
vida pode desaparecer da face da Terra em conseqüência de
explosões nucleares provocadas pelo homem.
Isso é uma
mentira deslavada.
Recentemente, cientistas
descobriram indícios da ocorrência de formas primitivas
de vida, de vermes, há 1,2 bilhão de anos. Portanto, mesmo
que a espécie humana venha a sucumbir, outras espécies
de vida melhor adaptadas ao novo meio deverão surgir. Em mais
um ou dois bilhões de anos novas criaturas, certamente bem mais
inteligentes que nós, estarão aptas a construir bombas
muito mais poderosas que as de hoje. E o que são dois bilhões
de anos diante da eternidade?
A
radiação é prejudicial à saúde?
Uns medrosos falam
que a radiação faz mal à saúde. São
uns frouxos.
A verdade é
que tudo além da medida pode ser prejudicial à saúde.
A água, por exemplo, é essencial à vida, mas beba
água de mais pra você ver o que acontece. Se água
de mais fosse boa pra saúde ninguém morria afogado, concorda?
Conclusão
Não perca
tempo!
Inicie hoje mesmo
a construção da sua bomba atômica e seja feliz com
os seus descendentes de três pernas e duas cabeças. Talvez
eles não sejam exatamente uma gracinha conforme padrões
já superados, mas estarão bem mais aptos a sobrevirem
na nova era nuclear.