Quando eu acordei naquela manhã eu me sentia bastante deprimido mas não conseguia identificar a razão desse meu estado de espírito. Mas, logo ao levantar-me, descobri a razão do mal-estar: era o dia de meu aniversário. "Estou um ano mais velho" - pensei. Ao entrar no banheiro, dei uma olhada no espelho e a imagem que vi foi de um homem envelhecido. Pelo menos foi isso que me pareceu. Apesar de estar completando trinta e oito anos, idade que não se pode considerar como avançada, essa foi a impressão que tive naquele instante.Ainda bem que logo eu iria descer, encontrar a minha mulher, de quem eu muito gostava e meus três filhos: a adorável Aninha de treze anos, o já quase rapaz Tuquinha de onze e a sapeca Betinha de nove. Já antecipava a satisfação e a alegria durante o café: parabéns, beijinhos, presentes. Mais um momento feliz com a minha família maravilhosa. Não deixava de ser maravilhosa, apesar dos eventuais e raros momentos de arrufos ou pequenos desentendimentos logo contornados.
Foi com essa idéia de felicidade na cabeça que tomei o banho, fiz a barba, me arrumei e desci para tomar café e, é claro, receber as homenagens da minha família: o parabéns-pra-você, os beijos e tudo o mais. Desci calado e sentei-me à mesa. Esperava que eles tomassem a iniciativa das comemorações, é claro.
Para minha grande surpresa, nenhuma palavra de afeto ou carinho, quer dizer, nada além do rotineiro "tchau pai", "tou atrasada", "minha carona tá chegando", o beijinho rápido. Quanto à minha mulher, ela não tirava os olhos do jornal e depois foi atender o telefone. Logo me vi sozinho à mesa. Comi qualquer coisa e fui para o trabalho com o coração apertado. Decepcionado, mas fazer o quê? Eles se esqueceram do meu aniversário. (Eu também já havia me esquecido do dia do aniversário de minha mulher uma vez. Mas isso já fazia muito tempo.)
Entrei no carro e uma grande frustração tomou conta de mim. E a depressão, que por um instante tinha ido embora, voltou como um grande peso sobre o meu coração.
Ao chegar ao escritório, minha secretária veio me receber toda alegre e com um largo e bonito sorriso no rosto. Foi quando eu percebi o quanto era bonito o sorriso de dona Sílvia.
- Parabéns, chefe. Que este dia lhe traga um monte de felicidades. Quer que eu lhe traga um café?
E não é que ela me deu um beijo no rosto? Um beijo um tanto formal, é bom que se diga.
Comparei com a recepção que tivera em casa e, não sei como, essa maneira de me receber deixou-me com uma sensação completamente diferente. Era como se toda a frustração anterior tivesse se dissipado de repente. Certamente o leitor já sentiu algo semelhante: você acha que tudo vai dando errado e, de repente, um sorriso, uma pequena atenção, um pequeno gesto, algo aparentemente sem muita importância muda todo o quadro e passamos a nos sentir bem melhor, feliz - ou quase. Foi o que aconteceu comigo naquela manhã no escritório.
Era quase meio dia quando a dona Sílvia entrou na minha sala e falou:
- Hoje, dia de seu aniversário, por que não almoçamos juntos? Conheço um restaurante ótimo, só que fica do outro lado da cidade.
- É. Podemos ir. Não tem problema se voltarmos um pouco mais tarde para o segundo expediente. Que mal faz? Não temos tanto trabalho assim e não é todo o dia que eu faço aniversario, não é?
Dona Sílvia concordou.
Enquanto conversávamos no percurso até o restaurante comecei a reparar que não era só o sorriso dela que era bonito. Ela, no vigor de seus trinta e poucos anos, era uma bela mulher. E como estava bonita naquele dia. Seria coincidência? Usava uma saia amarela com um corte do lado esquerdo que deixava parte da coxa à mostra. A cor amarela da saia contrastava com a cor morena da pele. E o decote? Não que o decote fosse ousado, mas sugeria, de modo bastante convincente, as belas formas de seu corpo. "Como eu nunca havia percebido isso antes?" me perguntava.
Chegamos ao restaurante e pedimos uma dose de uísque enquanto escolhíamos o que comer. Como estávamos indecisos quanto ao prato, pedimos mais uma dose e conversamos de modo descontraído, de uma forma que jamais tínhamos conversado antes. Chegamos mesmo a trocar algumas confidências. Todos falam em um clima, ou algo de gênero, que se forma entre duas pessoas. Foi isso o que aconteceu. Foi o que aconteceu comigo naquele almoço. Por um breve momento, cheguei a me lembrar da fria recepção no café da manhã. Mas o sorriso, o modo de olhar, a voz de dona Sílvia tudo isso me trouxe de volta àquele instante mágico. Achei que era mágico mesmo.
Por sugestão do maitre, tomamos um delicioso vinho italiano. Foi um almoço maravilhoso. Agradeci à Sílvia pela idéia do almoço e íamos andando para o carro quando eu disse a ela que tinha sido um dos melhores, talvez o melhor aniversário de minha vida. (Havia algum exagero nisso, mas...)
Mal entramos no carro, Sílvia sugeriu que passássemos em seu apartamento. Tomaríamos mais um uísque, ela faria um café e conversaríamos mais um pouco. Ela morava ali pertinho. Só mais três quadras à frente. Ela me fez essa proposta de uma maneira cordial, mas me pareceu transparecer um quê de sedução. Àquela altura, não tinha como recusar.
Chegamos ao prédio, entramos sozinhos no elevador e ficamos bem próximos um do outro. Quando a porta do elevador ia se fechando, duas crianças entraram fazendo uma grande algazarra. Nesse momento, ela me olhou de uma forma que parecia dizer "esses garotos..." . Essa foi a impressão que eu tive.
Entramos no apartamento, sentamos no sofá e ela perguntou que tipo de música eu preferia. Estávamos bem juntinhos para escolher o disco e cheguei a sentir o agradável perfume de seu corpo. Olhei bem nos olhos dela... E os olhos? Já falei dos olhos dela? Verdes, sedutores, maravilhosos. Fomos até o toca-discos, ela pôs o CD para tocar, depois chegou bem perto de mim, segurou minhas mãos e falou com o mais belo e encantador sorriso de todas as galáxias:
- Vou lá dentro vestir uma roupa mais confortável. Me espere aqui e prepare um uísque pra gente.
Poucos minutos depois, ela voltou com um bolo de aniversário nas mãos. Atrás dela, vinham minha mulher e os meus três filhos todos cantando parabéns-pra-você. E eu, que ridículo! estava somente de cuecas, no meio da sala, com um copo de uísque em cada mão.