Lendas
e folclore da Internet: as pulhas virtuais (hoax)
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Lenda
A Internacionalização da Amazônia,
A página 76 de um livro inexistente e o FINRAF
ou ainda
O Brasil dividido ou Enquanto é tempo v.2
(Livro falso.
Intenções verdadeiras?)
Nova
versão da lenda O
Brasil dividido faz referência a página de suposto
livro escrito por David Norman intitulado An Introduction to
Geography / SOUTH AMERICA. Segundo esse "livro",
a Amazônia agora se chamaria FINRAF.
Tudo
não passa de mais uma armação. Quer saber por quê?
Bem...
Como
costumava dizer o eminente cidadão de nacionalidade inglesa Mr.
Jack the Ripper: vamos por partes.
Primeiramente:
o livro existe? Pesquisando nas livrarias Amazon.com e Barnes &
Noble não encontrei o tal livro de geografia.
Ao
pesquisar na Amazon.com
o título An Introduction to GeographyE o autor
David Norman recebi a seguinte resposta:
"we
were unable to find exact matches for your search for
david norman and Introduction to geography"
Pesquisando
o autor David Norman recebi 40 resultados e a maioria dos títulos
trata de dinossauros, pré-história e temas correlatos.
Há também livros sobre ressonância magnética,
química e pássaros. Nada de geografia.
Portanto,
a Amazon.com, considerada a maior livraria do mundo, não vende
o tal livro. Talvez por desinteresse no tema. Talvez em virtude de o
livro mencionado na mensagem não existir :~))
E
na Barnes &
Noble? Dinossauros, répteis, dragões voadores e coisas
do gênero são abordados por Mr. David Norman, outros David
e outros Norman.
Pois
é. A mensagem fala de um "...livro didático ... amplamente
difundido nas escolas públicas americanas para a Junior High School."
Mesmo assim, apesar de "amplamente difundido", nem a Amazon
nem a Barnes & Noble o vende. Livrarias chinfrins, essas livrarias
;-}
Em
segundo lugar, que tal dar uma lida na página do suposto livro
e ver como escreve o autor dela, dessa página? Já fizeram
isso pra gente no artigo NOVA
MENSAGEM FORJADA CIRCULANDO PELA INTERNET. Carlos Alberto Teixeira,
o autor desse comentário, destaca 17 erros, alguns grosseiros,
cometidos por quem escreveu o livro, ou melhor, por quem escreveu a
página 76. Veja um deles.
O
autor da página 76 escreveu "3.000 square miles"
com ponto. Todo mundo sabe que os americanos usam vírgula para
separar as casas de milhares. Quer dizer, todo mundo sabe, menos o autor
e a editora do livro.
De
qualquer forma, vale a pena perguntar: essa área de 3.000 milhas
quadradas é significativa no contexto da Amazônia? Sem
dúvida, mesmo correspondendo a apenas 0,5% das 600.000 milhas
quadradas do maior estado brasileiro, o Amazonas. Ou a menos de 0,2
% da superfície total da Amazônia brasileira: 1,6 milhão
de milhas quadradas.
Como
é possível um autor de tantos livros sobre dinossauros
escrever com tantos deslizes? O autor dos livros sobre dinossauros é
outra pessoa? Então, como uma editora séria publicaria
um livro tão mal redigido e com tantos erros de inglês?
Tem
mais. Sugiro uma olhada na diagramação do livro, no projeto
gráfico dessa página. A página contida na mensagem
tem o número 76. Setenta e seis é um número par
e, portanto, corresponde ao verso, ou seja a página que fica
do lado esquerdo quando se abre um livro. (A menos que o livro seja
escrito para quem lê de trás pra frente.)
Há
dois pontos a considerar.
Primeiro,
a numeração da página.
A
grande maioria das editoras usa uma das seguintes alternativas para
numerar as páginas:
a) põe
o número no centro das páginas pares e no centro das
páginas ímpares;
b) põe
os números ímpares no lado direito da página
ímpar e os números pares no lado esquerdo da página
par. Dei uma olhada em vários livros e não encontrei
um só que invertesse as coisas.
Segundo:
veja a "página do livro" e compare as margens esquerda
e direita da página 76. (Clique na figura para vê-la
ampliada.)
Olhou?
Viu
como a margem esquerda, aquela que fica voltada para fora do livro,
é muito maior que a direita? A margem esquerda é, pelo
menos, três vezes maior que a margem direita. Isso não
é comum, a menos que se use essa margem para indicar o nome do
capítulo ou o conteúdo dele.
Curioso,
não?
Como
se vê, a pessoa que forjou a página não domina o
idioma inglês e não possui nenhuma familiaridade com livros
nem com a sua diagramação.
1. o tal "...
livro didático "Introduction to geography" do autor David Norman,
livro amplamente difundido nas escolas públicas americanas para a
Junior High School..." não se encontra à venda
nas duas maiores livrarias virtuais dos Estados Unidos. Isso não
soa estranho para um livro 'amplamente difundido'?
2. o autor da
página 76 usa um inglês estropiado para dizer as bobagens;
3. a diagramação
da página 76 não obedece ao padrão de numeração
usado pelas editoras;
4. a frase "
Pois chegou as mãos de um amigo o livro didático 'Introduction ..."
confirma uma das características das lendas: imprecisão
na indicação da fonte que poderia comprovar a veracidade
da história;
5. a última
frase da mensagem não deixa dúvida: é mais uma
pulha virtual.
No
mais, continuam valendo os comentários sobre o interesse dos
Estados Unidos no Brasil e na América Latina. Esses comentários
estão na página que trata da outra bobagem: O
Brasil dividido ou Enquanto é tempo.
Uma
pergunta: o suposto geógrafo David Norman
existe?
No
Departamento de Geografia da Eastern Kentucky University - EKU em Richmond,
Kentucky existe um professor chamado David N. Zurick. A letra "N"
significa Norman. Seria ele o autor do tal livro?
Alguma
confusão poderia ser criada pelo fato de o professor David Norman
Zurick ministrar a disciplina 11033-GEO Introduction to Geography
em um dos cursos da Eastern Kentucky University. No entanto, conferindo
a web
page e o currículo
do professor Dave Zurick, como ele se apresenta, verifica-se que, na
lista de suas publicações, não há referência
a nenhum livro de introdução à geografia. Por que
ele omitiria essa obra?
André,
um dos nossos colaboradores, nos envia mensagem com alguns comentários
sobre o ensino no Canadá e nos Estados Unidos e sobre livros
didáticos utilizados nas escolas médias de lá.
Diz
ele:
...tendo uma
filha na escola sei que os livros que ela recebe não existem
em nenhuma livraria, ...
...
Acredito que
o ensino no país vizinho seja parecido com o nosso aqui
[Canadá] , portanto você não vai encontrar
o livro senão na escola, e mais: dificilmente poderá
trazê-lo para casa.
Uma das explicações
do porq toda escola americana tem armários nos corredores
para os alunos. Esses livros ficam nas escolas servindo, por anos,
a muitos alunos
Acrescente-se:
mesmo que o tal livro exista e seja de circulação restrita,
fica difícil acreditar que uma boa escola publique e distribua
com os seus alunos um livro tão mal escrito.
Mensagem
com uma nova versão
dessa lenda voltou a circular em maio de 2002. Leva o nome de um senador
e não dá pra saber se o senador é o autor (pouco
provável) ou o destinatário dela. De qualquer forma, a
menção ao nome de um senador dá uma falsa credibilidade
a ela, mesmo porque o nome do senador é grafado de forma incorreta:
Maquito em lugar de Maguito (Maguito Vilela, PMDB-GO).
Essa
nova versão mistura informações falsas (a página
76 do livro inexistente) com suspeitas e menciona até Osama Bin
Laden, acusado de ser o autor intelectual dos atentados ao World Trade
Center em 11 de setembro de 2001.
Sobre
a internacionalização não só da Amazônia,
como também dos recursos pertencentes aos países do mundo,
vale a pena ler o artigo do pernambucano Cristóvam Buarque, senador,
ex-ministro da educação, ex-reitor da Universidade de
Brasília e ex-governador do Distrito Federal. Clique
aqui e veja o que mais se deveria internacionalizar. (Artigo publicado
no jornal O Globo em 23 de outubro de 2000.)
As
coisas se misturaram e, em janeiro de 2003, o artigo de Cristóvam
Buarque passou a circular na Internet com a observação:
OBS: ESTA
MATÉRIA FOI PUBLICADA NO NEW YORK TIMES/ WASHINGTON POST, TODAY
E NOS MAIORES JORNAIS DA EUROPA E JAPÃO. NO BRASIL ESTA MATÉRIA
NÃO FOI PUBLICADA. AJUDE- NOS A DIVULGÁ-LA...
Não
há registro de que o artigo tenha sido publicado nos jornais
mencionados. Conforme dito no parágrafo anterior, o artigo original
foi publicado no Brasil pelo jornal O Globo em 23 de outubro de 2000.
Em
Dossier
Amazônia: anatomia de uma fraude Paulo Roberto Almeida, Ministro
Conselheiro da Embaixada do Brasil em Washington apresenta dossier detalhado
dessa história. Traz, inclusive, mensagens trocadas com pessoas
que acreditam na fraude (e, certamente, também acreditam em Papai
Noel, na cegonha, no chupa-cabra, no ET de Varginha .... ;-)))
Lendo
as mensagens transcritas, é interessante notar como, às
vezes, uma consulta ou uma dúvida é posta de tal forma
que ela chega ao leitor como uma afirmação categórica.
Daí a se formar uma convicção não demora
nada e esse tema, muito sensível, é capaz de mexer com
sentimentos e brios de pessoas pertencentes aos mais amplos espectros
políticos: desde a direita extremada do "Brasil: ame-o ou
deixe-o" até os mais ferrenhos comunistas comedores de criancinhas.
(Dizem por aí que há, apenas, dois sobreviventes comunistas
na Terra: Fidel Castro e um arquiteto brasileiro. Deve ser intriga da
oposição ;)
Em
outubro de 2003, a mensagem voltou a circular em nova versão
que traduz FINRAF por PRINFA (deve ser prima da Finraf :). Como contribuição
à lenda, é adicionada uma HORRORIZANTE TRADUÇÃO DO TEXTO
QUE ESTÁ AO LADO DO MAPA (sic). Veja a horrorizante
tradução.
O
professor João Batista do Nascimento, da Universidade do
Pará, nos envia mensagem
com reprodução da página de um livro que traz
imagem semelhante à do suposto livro de geografia. Não
se trata de um livro norte-americano, mas de um livro editado no
Brasil: Novo Tempo (Imenes, Jacuko e Lellis, editora Scipione, vol
4).
Clique
na imagem para ampliá-la.
Veja
também o curta metragem Dia em que o Brasil Foi Invadido:
Sobre
o 'interesse' dos EUA no Brasil vale a pena conhecer o caderno especial
Documento publicado no Diário de Pernambuco
em 30 de agosto de 2006. Nele, o jornalista pernambucano Vandeck
Santiago traz algumas revelações interessantes. (V.
"O plano de Kennedy para o Nordeste", Diário de
Pernambuco, Recife, 30 de agosto de 2006.)
Dessa documentação
consultada por ele [historiador Moniz Bandeira] faz parte um informe
encaminhado a João Goulart pelo SCIFI (o serviço
de informações do governo) sobre um campo de pouso
clandestino em Teresina - PI, que faria parte, segundo Bandeira,
de uma 'operação especial' organizada pela CIA para
a eventualidade de uma invasão."
Mais
adiante (mesma página), sob o título Armas
e infiltração, Santiago acrescenta:
"1) À
meia-noite de 16 de julho de 1963 um misterioso submarino chegou
à costa pernambucana. Era norte-americano, prefixo WZI-0963,
seu comandante provavelmente chamava-se Roy [...]. Desembarcou
em Pernambuco 750 brazucas (sic), revólveres,
espingardas e granadas, que foram transportadas para estados do
nordeste. Generais brasileiros, reformados, estiveram no desembarque.
[...]
"A chegada
de armas já era, em si, um fato grave. Mais ainda porque
parte delas era fabricada na Tcheco-Eslováquia, na época
um país comunista. O que diabos armas tchecas estariam
fazendo num submarino americano? A suposição: era
uma tentativa de provocação. Para que — quando
necessário — fossem 'apreendidas' e mostradas como
prova de que os comunistas estavam armando revolucionários
nordestinos'"
Todos
nós já ouvimos falar que os americanos querem transformar a Amazônia
num parque mundial com tutela da ONU, e que os livros escolares
americanos já citam a Amazônia como floresta mundial.
Pois
chegou as mãos de um amigo o livro didático "Introduction to geography"
do autor David Norman, livro amplamente difundido nas escolas
públicas americanas para a Junior High School (correspondente
à nossa sexta série do 1ºgrau).
Olhem
o anexo e comprovem o que consta a página 76 deste livro e vejam
que os americanos já consideram a Amazônia uma área que não é
território brasileiro, uma área que rouba território de oito países
da América do Sul e ainda por cima com um texto de caráter essencialmente
preconceituoso.
Vamos divulgar isso para o maior número de pessoas possível a
fim de podermos fazer alguma coisa ante a esse absurdo...
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