Nos últimos tempos, a Monsanto tem aparecido bastante na mídia principalmente em razão da soja transgênica por ela criada e pelo fato de ela ser a líder no segmento de herbicidas. Duas matérias muito discutidas por ambientalistas de todo mundo: herbicidas e plantas genéticamente modificadas, especialmente a soja, a batata, o milho e o algodão. Produtos essenciais. Bons ingredientes para muita discussão.
E tem mais: a empresa criadora do Aspartame também criou o tristemente famoso agente laranja, desfoliante bastante usado na guerra do Vietnã cujos efeitos ainda hoje são percebidos nas terras e nos habitantes daquela região e também em ex-combatentes norte-americanos. Ser responsável pelo agente laranja é uma boa credencial, é um passado respeitável? Depende do ponto de vista. Uma visão humanista o reprova. O general William Westmoreland certamente tinha um grande apreço por ele, pelo agente laranja.
(Em abril de 2000 foi criada a Pharmacia Corporation resultado da fusão das empresas Pharmacia & Upjohn e a Monsanto Company. Em julho de 2002, a Pfizer, maior empresa mundial do setor farmacêutico, comprou a Pharmacia.)
O texto original vem percorrendo a Internet há alguns anos e tem a autoria atribuída a Nancy Markle, mas teria sido redigido na verdade por Betty Martini em 1995 ou 1996. Betty Martini, de profissão indefinida (teria trabalhado na área de saúde), criou uma organização chamada Mission Possible International.
Logo na página de abertura desse site aparece a proposta da organização:
No artigo O perigo dos adoçantes artificiais Aspartame: o veneno dos anos 90 apresenta-se a lista de alguns dos males provocados pelo Aspartame, a talidomida dos anos 90, segundo os autores. Muitos males para uma só causa? (Faltaram a espinhela caída e o nó na tripa gaiteira :)
Será que o bom senso ou um senso crítico mais apurado dá para acreditar em uma só causa para tantos e diversos efeitos nocivos? Pouca coisa escapou nessa lista de doenças.
Uma leitura mais atenta da mensagem e do conteúdo dos sítios que fazem essa cruzada contra o Aspartame levanta algumas questões. Uma delas:
Por que médicos e cientistas de instituições sérias permitem que se continue a perpetrar tão hediondo crime contra a humanidade? Uma resposta: são incompetentes e insensíveis. Pergunta-se: todos eles?
Outra resposta: todos eles teriam sido comprados pelos lobbies da indústria química e farmacêutica. É o que sugere um dos sites. Las antesalas de la industria farmacéutica y química tienen grandes bolsillos. (The drug and chemical lobbies have very deep pockets.)
A linguagem usada pelos cruzados contra o Aspartame tem um ranço de histeria. Enquanto um cientista responsável afirma que "...há (ou não há) provas de que a atribuição de um certo valor a uma variável é capaz de produzir um certo efeito..." ou "...em x casos observados ocorreram tantas reações de tal tipo..." a mensagem afirma categoricamente que todos os males citados foram causados pelo Aspartame. E mais: em nenhum momento ela diz quantos casos foram observados.
As pesquisas sobre o uso de novas substâncias em seres humanos segue uma rotina bastante severa. Muitos casos são observados. Além disso, é muito difícil ocorrer que os efeitos de uma droga sejam absolutamente iguais em todas as pessoas submetidas aos experimentos. Pessoas diferentes reagem diferentemente. O que é importante é verificar se um percentual significativo dos pacientes sob observação apresenta determinadas reações e se essas reações estão diretamente relacionadas a determinados fatores.
Não se pode cair no exagero oposto e afirmar que os donos e executivos dos grandes (médios e pequenos) laboratórios sejam, todos eles, anjos descuidadamente ou providencialmente caídos do céu. Existem ganância, descaso e erros? Certamente. Basta lembrar o caso da talidomida amplamente receitada a gestantes na década de 50 e que produziu efeitos teratogênicos. São muitas as pessoas, em todo o mundo, que sofreram e ainda sofrem as conseqüências dela.
Aqui no Brasil, investigações realizadas no ano de 1999 localizaram laboratórios que vendiam remédios falsificados. Pergunta-se: quais as consequências? Para os que tomaram os remédios falsificados foram as piores. Em alguns casos, houve mortes; em outros, agravamento do quadro clínico. (Pra não falar das farinhas...) E para quem falsificou os medicamentos, quais as conseqüências? Pergunte aos governantes. Eles sabem. Na verdade, todos sabemos.
No site brasileiro da NutraSweet, a empresa apresenta o artigo "Fatos e ficção: Desfazendo os mitos sobre NutraSweet na Internet". (Página indisponível no momento da revisão deste artigo.).
A Dozen Straight Answers About Aspartame Safety é o título de artigo contido no sítio da NutraSweet americana. Nele, apresentam-se perguntas e respostas referentes ao uso e a possíveis doenças causadas pelo Aspartame. O texto contém referências a outros artigos, anais de congressos, sítios e livros. As instituições mencionadas têm credibilidade no meio científico.
Material suspeito e parcial, dirão os adeptos da cruzada anti-aspartame.
No sítio Dorway.com existem artigos assegurando os malefícios do Aspartame: ele é o grande vilão sempre à espreita para liquidar os seus consumidores. Todos os links da página remetem ao próprio site da Dorway.com. Suspeito e parcial? (Diz também que a FDA relacionou 92 sintomas, inclusive a morte. É estranho a morte apresentar-se como um sintoma, mas....)
Como existe a possibilidade real de pessoas mais susceptíveis ao Aspartame apresentarem reações adversas, não se pode afirmar que o conteúdo da mensagem é totalmente falso. É uma "meia lenda"? Pode ser.
É bom destacar, portanto, que não é improvável nem impossível que o Aspartame possa causar males ou exacerbar quadros de saúde em pessoas sensíveis, por exemplo, à Fenilalanina.
Um de nossos colaboradores relata o caso dele: o consumo de refrigerante contendo o Aspartame em sua composição lhe trouxe sérios problemas de saúde. Ao suspender o consumo do refrigerante, os problemas se foram "...como num passe de mágica..." diz ele.
O seu médico assistente afirmou "... que o Aspartame contém uma enzima que alguns organismos não metabolizam e, nesses casos, essa enzima se agrega ao sistema nervoso e provoca distúrbios neurológicos."
Portanto, é perfeitamente possível a ocorrência de sérios problemas de saúde, conseqüência do consumo dessa droga, em pessoas sensíveis aos seus componentes.
Isto significa que todo o conteúdo da mensagem e dos sítios anti-aspartame sejam todos eles verdadeiros? Não. É tudo mentira? Certamente há casos reais misturados à histeria. Como separar um do outro? Consulte o seu médico. Ninguém melhor do que ele para orientar e tirar todas as dúvidas.
Você não pode consumir o açúcar? Você tem dúvida quanto às possíveis conseqüências que o Aspartame trará ao seu organismo? Consulte o seu médico. O seu médico recomendou um adoçante com o Aspartame? Sua dúvida persiste? Considere a possibilidade de consultar outro médico.
De qualquer forma, o teor da mensagem, a forma como ela é redigida, o apelo característico das lendas levam à suspeição: é uma lenda? É uma meia lenda, repetimos.
Ela mistura possibilidades reais com histeria.
Todo o conteúdo dela é falso? Possivelmente não.
Todo o conteúdo é verdadeiro? Possivelmente não.
Como separar o que é falso do verdadeiro?
Não se deve esquecer de fazer uma pergunta bem simples: como é possível um só produto causar tantas doenças e tantos males e continuar a ser vendido e ingerido por tanta gente em todo o mundo? Antes que me lembrem que estamos no Brasil e que aqui nem sempre as questões ligadas à saúde pública são levadas muito a sério, faço mais uma pergunta: e no resto do mundo?
Há um trecho curioso na mensagem: