Lendas
urbanas, pulhas virtuais, desinformação, mentiras,
vírus, cavalos de tróia, golpes e muitas outras
coisas que vagam pela Internet e tiram o sossego do Internauta.
Veja
também o que existe de verdade em uma ou outra mensagem.
Ao
pesquisar o termo "guaicaipuro cuatemoc" no
Google retornam mais de 3.400 resultados (fevereiro de
2008). Em novembro de 2009 são 115.000 resultados.
Todos eles referem-se a discurso que teria sido proferido
pelo cacique Guaicaipuro Cuatemoc numa reunião
de chefes de estado da Comunidade Européia.
Cacique
Guaicaipuro Cuatemoc, Guaicaipuro Cuauhtemoc, Guatemoccomo,
Cuauhtemotzin ou Guatimozin como também aparece
em diversas páginas
da web.
O
discurso jamais poderia ter sido produzido pelo cacique
Guatimozin, o último chefe dos Aztecas, pois
ele morreu em 1525 pelas mãos do sanguinário
Cortés ou Cortez, cuja "cortesia" se
resumia em matar e roubar.
Veja
reprodução de quadro que mostra o
cacique Guatimozin sendo torturado pelo civilizado
representante europeu para confessar onde se encontravam
as jóias que Cortez queria roubar.
A
suposta fala do cacique é reproduzida nos mais
diversos idiomas. Existem páginas em italiano,
espanhol, português, alemão, inglês,
francês, holandês e catalão.
Quem
é ou quem foi o cacique Guaicaipuro Cuatemoc?
A que tribo ou nação ele pertence? Onde
se realizou e quem estava presente a essa reunião
de chefes de estado da Comunidade Européia?
A
verdade é que não existem informações
confiáveis sobre o cacique, a que tribo ou nação
ele pertence, nem qual o seu país de origem.
Uma
das páginas fala no "cacique
de uma nação indígena da América
Central". Mensagem de fevereiro de 2008 diz que ele
era embaixador do México. São as duas referências
mais precisas.
Até
mesmo a data em que o discurso teria sido proferido não
é muito precisa. Para L'Espace
Citoyens a reunião teria ocorrido no mês
de abril de 2002 na cidade de Valência (Espanha).
Na maioria das páginas, no entanto, a data informada
é 08 de fevereiro de 2002.
Página
da New
Internationalist Publications diz que o discurso foi
proferido pelo cacique, um líder indígena
mexicano, na Europa em 1992, durante comemorações
do descobrimento da América. Segundo essa página,
o texto foi reproduzido a partir de original publicado
em Renacer Indianista No 7, e da tradução
contida na revista Resurgence No 184.
Nenhum
resultado retorna da pesquisa aos termos "guaicaipuro
cuatemoc" na caixa de busca da página Resurgence
Magazine On-line.
Página
Día
de la Raza diz que o discurso foi trasmitido en
traducción simultánea a más de un
centenar de Jefes de Estado y dignatarios de la Comunidad
Europea. Ou se esqueceram de gravar o discurso e
as traduções ou os registros se perderam.
Uma
das páginas que reproduzem o discurso apresenta
a data de 29 de setembro de 2002 e diz que a tal reunião
teria ocorrido "na semana passada".
O
texto publicado no site de notícias Virtual
Azores se inicia assim:
A conferencia dos chefes de estado da União
Europeia, Mercosul e Caribe, encerrada no fim
de semana passado, em Madrid, viveu dois momentos
surpreendentes. O primeiro por causa da desatenção
dos presidentes do México, Vicente Fox,
e do Brasil, Fernando Henrique Cardoso.
No
intervalo de uma sessão os dois conversaram
com franqueza e desancaram os EUA que, segundo
FHC "fala muito e faz pouco". Não sabiam
que os microfones de uma estacão de TV
estavam ligados, e assim, apanhados no contrapé,
admitiram a gafe.
Novamente
o Google: ao pesquisar imagens de Guaicaipuro Cuatemoc
retornam mais de 500 resultados. Apenas três ou
quatro delas têm a ver com o personagem: são
desenhos. Nenhuma fotografia do momento em que ele teria
discursado no tal encontro. Não existe gravação
da voz nem vídeo do discurso.
Afinal
de contas, o cacique existe ou não?
É
pouco provável que exista algum cacique, embaixador
ou índio com esse nome. Tudo não passa da
análise de uma mente mais revoltada ou lúcida
sobre os séculos de exploração, saques,
matanças e roubos perpetrados pelos "civilizadores"
europeus no Novo Mundo.
Espanhóis,
portugueses, ingleses, franceses e holandeses cada um
deles participou da "colonização"
das américas em maior ou menor medida.
Aqui
no Brasil, por exemplo, alguns passaram rapidamente, saquearam
e se foram com o butim. Como Lancaster, o pirata inglês
que fez a "festa" no Recife.
Outros
passaram mais tempo "colonizando" e depois se
mandaram. Se mandaram e até hoje são homenageados
como grandes figuras da história brasileira. (Ainda
hoje, há os que pilham o país e nem se dão
ao trabalho de ir embora ;((
Versão
de fevereiro de 2008 diz que Guaicaipuro
Cuatemoc era embaixador do México e tem o seguinte
preâmbulo:
Um
surpreendente discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro
Cuatemoc, de descendência indígena, advogando
o pagamento da dívida externa do seu país,
o México, deixou embasbacados os principais chefes
de Estado da Comunidade Européia. A conferência
dos chefes de Estado da União Européia,
Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um
momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado
europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico,
cáustico e de exatidão histórica
que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc.
Em
julho de 2008, intelectuais da América Latina lançaram
Manifesto contra a lei de imigração européia.
O manifesto de certa forma corrobora o conteúdo
do discurso do cacique inexistente ao afirmar que
...
a Europa não seria a Europa sem a matança
dos indígenas na América, sem a escravização
dos filhos da África, para trazer à luz
apenas um par de exemplos desses esquecimentos."
O
manifesto:
Manifesto
contra a lei de imigração européia
Senhores
governantes e parlamentares europeus
Alguns
de nossos antepassados, poucos, muitos ou todos,
vieram da Europa.
O
mundo inteiro recebeu com generosidade os trabalhadores
emigrantes da Europa.
Agora,
uma nova lei européia, ditada pela nascente
crise econômica, castiga como crime a
livre circulação das pessoas,
que é um direito consagrado pela legislação
internacional já faz alguns anos.
Isso
não é novo, porque desde sempre
os trabalhadores estrangeiros são os
bodes expiatórios das crises de um sistema
que os usa enquanto precisa para logo depois
joga-los na lata de lixo.
Isso
não é novo, mas é uma infâmia.
A
amnésia, que nada tem de inocente, impede
que a Europa se lembre de que nada seria sem
a ajuda que o mundo inteiro lhe deu: a Europa
não seria a Europa sem a matança
dos indígenas na América, sem
a escravização dos filhos da África,
para trazer à luz apenas um par de exemplos
desses esquecimentos.
A
Europa deveria pedir perdão ao mundo,
ou pelos menos agradecer-lhe, ao invés
de consagrar em lei a caça e o castigo
dos trabalhadores que chegam a seu solo corridos
pela fome e pelas guerras que os senhores do
mundo lhes dão de presente.
Desde
o continente americano, julho de 2008.
ARGENTINA
Adolfo Pérez Esquivel, Premio Nobel da
Paz
Atilio Boron, Escritor
Hebe Bonafini, Madres de la Plaza de Mayo
Osvaldo Bayer, Escritor
Hermana Martha Pelloni, Militante Direitos Humanos
Diana Maffía, Filósofa feminista
Rally Barrionuevo, Cantautor
Claudia Korol, Jornalista, Clacso
BOLIVIA
Eduardo Paz, Professor Universitário
Humberto Claure Quezada, Engenheiro, Editor
da Revista Patria Grande
BRASIL
Augusto Boal, Teatrólogo
Afrânio Mendes Catani, Professor da USP
Candido Grzyboswki, Sociólogo do IBASE
e FSM
Chico Withaker, Sociólogo, FSM
Emilia Vioti da Costa, Historiadora,
Elias de Sá Lima, Engenheiro
Gaudêncio Frigotto, Educador
Heloisa Fernandes, Socióloga, ENFF
Jean Pierre Leroy, Ambientalista, FASE
Jean Marc Von der Weid, Economista agrícola,
ASPTA
Joao Pedro Stedile, Ativista social, MST
Mario Maestri, Historiador,
Pedro Casaldaliga, Bispo, poeta
Renée France de Carvalho, Militante internacionalista
Rita Laura Segato, Antropóloga, UNB
Vânia Bambirra, Economista
Vito Gianotti, Jornalista
CANADÁ
Naomi Kleim, Jornalista, escritora, autora de
"No Logo"
Pat Mooney, Pesquisador de tecnologías,
Premio Nobel Alternativo.
Michael A. Lebowitz, Professor, Simon Fraser
University.
CHILE
Cosme Caracciolo, Conf. Nac. de Pescadores Artesanales
de Chile.
Luis Conejeros, Presidente do Colegio de Periodistas
de Chile.
Marco Enríquez-Ominami, Deputado
Manuel Cabieses, Diretor da revista Punto Final.
Marta Harnecker, Socióloga, escritora
Manuel Holzapfel, Jornalista
Ernesto Carmona, Conselheiro Nacional do Colegio
de Periodistas de Chile
Paul Walder, Professor universitário
e jornalista
Pedro Lemebel, Escritor
Flora Martínez, Enfermeira
Alberto Espinoza, Advogado
Tomas Hirsch, Porta-voz do Humanismo para Latinoamérica
CUBA
Aleida Guevara, Médica pediatra
Joel Suárez Rodes, Centro Memorial Dr.
Martin Luther King
EQUADOR
Alberto Acosta, Economista, membro da Assembléia
Constituinte
Carolina Portaluppi, Escritora
Juan Meriguet Martínez, Comunicador
Pavel Égüez, Artista plástico
Hanne Holst, Feminista
Luigi Stornaiolo, Artista plástico
Osvaldo Leon, Jornalista, ALAI
Verónica León-Burch, Produtora
de Vídeo
ESTADOS
UNIDOS
Saul Landau, Cineasta
Norman Solomon, Jornalista
Susanna Hecht, Professora da UCLA
Richard Levins, Professor de Harvard
Noam Chomsky, Professor do MIT
Peter Rosset, Pesquisador
Fernando Coronil, Historiador e antropólogo
da Universidade de Nova Iorque
Mario Montalbetti, Lingüista e poeta
John Vandermeer, Professor da Universidade de
Michigan
HAITI
Jean Casimir, Antropólogo, escritor
Camille Chammers, Economista
MÉXICO
Subcomandante Insurgente Marcos, cidadão
do mundo no México
Ana Esther Ceceña, Economista, pesquisadora
da UNAM
Felipe Iñiguez Pérez
Maria de Jesús González Galaviz
Pablo Gonzalez Casanova, Sociólogo
Luis Hernández Navarro, Jornalista do
La Jornada
Beatriz Aurora, Artista
Victor Quintana, Deputado Estadual e dirigente
campesino
Raquel Sosa, Escritora, professora da UNAM
Rodolfo Stavenhagen, Relator da ONU para direitos
indígenas
Silvia Ribeiro, Pesquisadora
NICARÁGUA
Carlos Mejia Godoy, Cantautor (compositor y
cantor)
Ernesto Cardenal, Poeta, escritor e sacerdote
Gioconda Belli, Poetisa e escritora
Luis Enrique Mejia Godoy, cantautor
Mónica Baltodano, deputada, ex-comandante
sandinista
Dora Maria Tellez, ex-comandante sandinista
Sergio Ramirez Mercado, escritor
PARAGUAY
Fernando Lugo, bispo licenciado, Presidente
eleito do Paraguay
Marcial Gilberto Congon, pedagogo popular
Ricardo Canesse, engenheiro, parlamentar Parlasur
PERU
Aníbal Quijano, sociólogo, escritor
Carmen Pimentel, Psicóloga, escritora
Carmen Lora, Universidad Católica de
Perú
Mirko Lauer, poeta, ensaísta
Rolando Ames, cientifico social, escritor.
URUGUAI
Eduardo Galeano, escritor
Antonio Elias, Economista, SEPLA
Colonialismo
x colonialidade do poder (Você
desconfiava que existiam cerca de 370 milhões
de índios no mundo? E que eles correspondem
a um terço dos 900 milhões de humanos
que vivem em extrema pobreza em áreas rurais
deste planeta?)
Com linguagem simples, que era transmitida em
tradução simultânea para mais
de uma centena de chefes de estado e demais dignatários
da Comunidade Européia, o discurso do Cacique
Guaicaipuro Cuatemoc provocou um silêncio
inquietante na audiência quando falou:
"Aqui
estou eu, descendente dos que povoaram a América
há 40 mil anos, para encontrar os que a
encontraram só há 500 anos.
O
irmão europeu da aduana me pediu um papel
escrito, um visto, para poder descobrir os que
me descobriram. O irmão financista europeu
me pede o pagamento, com juros, de uma divida
contraída por um Judas, a quem nunca autorizei
que me vendesse.
Outro
irmão europeu, um rábula, me explica
que toda dívida se paga com juros, mesmo
que para isso sejam vendidos seres humanos e países
inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu
também posso reclamar pagamento, também
posso reclamar juros.
Consta
no Arquivo das Índias. Papel sobre papel,
recibo sobre recibo, assinatura sobre assinatura
que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram
a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos
de ouro e 16 milhões de quilos de prata
provenientes da América
Terá
sido isso um saque?
Não
acredito porque seria pensar que os irmãos
cristãos faltaram ao Sétimo Mandamento!
Teria
sido espoliação? Guarda-me Tanatzin
de me convencer que os europeus, como Caim, matam
e negam o sangue do irmão
Teria
sido genocídio? Isso seria dar crédito
aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas
que qualificam o encontro de "destruição
da Índias" ou Arturo Uslar Pietri,
que afirma que a arrancada do capitalismo e a
atual civilização européia
se devem à inundação de metais preciosos
retirados das Américas!
Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16
milhões de quilos de prata foram o primeiro
de outros empréstimos amigáveis
da América destinados ao desenvolvimento
da Europa. O contrário disso seria presumir
a a existência de crimes de guerra, o que
daria direito a exigir não apenas a devolução,
mas indenização por perdas e danos.
Eu, Guaicaipuro Cuatémoc, prefiro pensar na hipótese
menos ofensiva.
Tão
fabulosa exportação de capitais
não foi mais do que o início de
um plano "Marshal-tezuma", para garantir
a reconstrução da Europa arruinada
por suas deploráveis guerras contra os
muçulmanos, criadores da álgebra,
da poligamia, do banho diário e outras
conquistas da civilização.
Por isso, ao celebrarmos o Quinto Centenário
desse Empréstimo, poderemos nos perguntar:
Os irmãos europeus fizeram uso racional,
responsável ou pelo menos produtivo desses
recursos tão generosamente adiantados pelo
Fundo Indo-americano Internacional?
É com pesar que dizemos não.
No
aspecto estratégico, o dilapidaram nas
batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis,
em terceiros reichs e outras formas de extermínio
mútuo, sem um outro destino a não
ser terminar ocupados pelas tropas gringas da
OTAN, como um Panamá, mas sem o canal.
No aspecto financeiro foram incapazes, depois
de uma moratória de 500 anos, tanto de
amortizar o capital e seus juros, quanto se tornarem
independentes das rendas liquidas, das matérias
primas e da energia barata que lhes exporta e
provê todo o Terceiro Mundo.
Este
quadro corrobora a afirmação de
Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada
jamais pode funcionar. E nos obriga a reclamar-lhes,
para o seu próprio bem, o pagamento do
capital e dos juros que, tão generosamente
temos demorado todos estes séculos para
cobrar.
Ao
dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos
a cobrar de nossos irmãos europeus, as
mesmas vis e sanguinárias taxas de 20%
e até 30% de juros que os irmãos
europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo. Nos
limitaremos a exigir a devolução
dos metais preciosos emprestados, acrescidos de
um módico juro fixo de 10%, acumulado apenas
durante os últimos 300 anos.
Sobre
esta base, e aplicando a fórmula européia
de juros compostos, informamos aos descobridores
que eles nos devem 180 mil quilos de ouro e 16
milhões de quilos de prata, ambas as cifras
elevadas à potência de 300. Isso quer dizer
um número para cuja expressão total
seriam precisos mais de 300 cifras, e que supera
amplamente o peso total do planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata! Quanto pesariam calculados
em sangue?
Admitir
que a Europa, em meio milênio, não
conseguiu gerar riquezas suficientes para pagar
esses módicos juros seria como admitir
seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demêncial
irracionalidade dos pressupostos do capitalismo.
Tais questões metafísicas, desde
já, não nos inquietam aos índo-americanos.
Porém exigimos a assinatura de uma carta
de intenções que discipline aos
povos devedores do Velho Continentes e que os
obrigue a cumpri-la, sob pena de uma privatização
ou conversão da Europa, de forma que lhes
permita nos entregá-la inteira como primeira
prestação da dívida histórica."
Quando terminou seu discurso diante dos Chefes
de Estado da Comunidade Europeia, o Cacique Guaicaipuro
Cuatemoc, nem sabia que estava expondo uma tese
de Direito Internacional para determinar a Verdadeira
Dívida Externa.
Agora só resta que algum Governo Latino
Americano tenha a dignidade suficiente para impor
seus direitos perante os Tribunais Internacionais.
Os europeus ali reunidos devem ter percebido que
nesse tempo de globalização e tecnologia,
índio já não quer mais apito,
quer que lhe paguem o devido, com juros.
Se
tem amigos honestos, faça-os conhecer este
discurso. Eles tambem têm sido vendidos.
Versão
de fevereiro de 2008.
Sent:
Friday, February 22, 2008 11:00 AM
Subject: Discurso do século sobre divida
externa
O
Discurso do século
Um
surpreendente discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro
Cuatemoc, de descendência indígena,
advogando o pagamento da dívida externa
do seu país, o México, deixou embasbacados
os principais chefes de Estado da Comunidade Européia.
A conferência dos chefes de Estado da União
Européia, Mercosul e Caribe, em maio de
2002 em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente:
os chefes de Estado europeus ouviram perplexos
e calados um discurso irônico, cáustico
e de exatidão histórica que lhes
fez Guaicaípuro Cuatemoc.
"Aqui
estou eu, descendente dos que povoaram a América
há 40 mil anos, para encontrar os que a
descobriram só há 500 anos. O irmão
europeu da aduana me pediu um papel escrito, um
visto, para poder descobrir os que me descobriram.
O irmão financista europeu me pede o pagamento
- ao meu país -, com juros, de uma dívida
contraída por Judas, a quem nunca autorizei
que me vendesse. Outro irmão europeu me
explica que toda dívida se paga com juros,
mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos
e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros.
Consta no Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais
que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram
a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos
de ouro e 16 milhões de quilos de prata
provenientes da América.
Teria
sido isso um saque? Não acredito, porque
seria pensar que os irmãos cristãos
faltaram ao sétimo mandamento!
Teria
sido espoliação? Guarda-me Tanatzin
de me convencer que os europeus, como Caim, matam
e negam o sangue do irmão.
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito
aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas
ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada
do capitalismo e a atual civilização
européia se devem à inundação
de metais preciosos tirados das Américas.
Não,
esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões
de quilos de prata foram o primeiro de tantos
empréstimos amigáveis da América
destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário
disso seria presumir a existência de crimes
de guerra, o que daria direito a exigir não
apenas a devolução, mas indenização
por perdas e danos.
Prefiro
pensar na hipótese menos ofensiva. Tão
fabulosa exportação de capitais
não foi mais do que o início de
um plano 'MARSHALL MONTEZUMA', para garantir a
reconstrução da Europa arruinada
por suas deploráveis guerras contra os
muçulmanos, criadores da álgebra,
da poligamia, e de outras conquistas da civilização.
Para
celebrar o quinto centenário desse empréstimo,
podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram
uso racional responsável ou pelo menos
produtivo desses fundos?
Não.
No aspecto estratégico, dilapidaram nas
batalhas de Lepanto, em navios invencíveis,
em terceiros reichs e várias formas de
extermínio mútuo. No aspecto financeiro,
foram incapazes, depois de uma moratória
de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus
juros quanto independerem das rendas líquidas,
das matérias-primas e da energia barata
que lhes exporta e provê todo o Terceiro
Mundo.
Este
quadro corrobora a afirmação de
Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada
jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes,
para seu próprio bem, o pagamento do capital
e dos juros que, tão generosamente, temos
demorado todos estes séculos em cobrar.
Ao dizer isto, esclarecemos que não nos
rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos
europeus, as mesmas vis e sanguinárias
taxas de 20% e até 30% de juros ao ano
que os irmãos europeus cobram dos povos
do Terceiro Mundo.
Nos
limitaremos a exigir a devolução
dos metais preciosos, acrescida de um módico
juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos
300 anos, com 200 anos de graça. Sobre
esta base e aplicando a fórmula européia
de juros compostos, informamos aos descobridores
que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16
milhões de quilos de prata, ambas as cifras
elevadas à potência de 300. Isso
quer dizer um número para cuja expressão
total será necessário
expandir o planeta Terra.
Muito
peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados
em sangue?
Admitir
que a Europa, em meio milênio, não
conseguiu gerar riquezas suficientes para esses
módicos juros, seria como admitir seu absoluto
fracasso financeiro e a demência e irracionalidade
dos conceitos capitalistas.
Tais
questões metafísicas, desde já,
não inquietam a nós, índios
da América. Porém, exigimos assinatura
de uma carta de intenções que enquadre
os povos devedores do Velho Continente e que os
obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização
ou conversão da Europa, de forma que lhes
permitam entregar suas terras, como primeira prestação
de dívida histórica..."
Quando
terminou seu discurso diante dos chefes de Estado
da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro
Guatemoc não sabia que estava expondo uma
tese de Direito Internacional para determinar
a verdadeira dívida externa.
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