Sent: Sunday,
July 01, 2007 4:06 PM
Subject: Despedida de Zé Roberto do Brasil
CARTA
DO JOGADOR ZÉ ROBERTO
JOGADOR
ZÉ ROBERTO SE DESPEDE DO BRASIL
"Inicialmente
gostaria de expressar minha gratidão ao Brasil. Foi com
prazer que por muito tempo defendi a camisa canarinho e me orgulhei
de ser brasileiro.
Infelizmente
este país não faz mais parte de mim. Por muitos
anos vivi com minha família na Alemanha e me identifiquei
completamente com o país. A despeito de certos intolerantes
e racistas, que são minoria, minha família se
integrou totalmente ao modo de vida alemão. Minhas filhas
mal falam português e são totalmente fluentes em
alemão.
Para voltar
ao Brasil, isto pesou muito. Queria que elas se sentissem, como
me sentia, brasileiro. Queria que conhecessem o meu país,
que falassem a minha língua nativa, queria mostrar o
lado bom do Brasil, um pouco diferente daquilo que volta e meia
aparece nos noticiários de TV alemão.
A tentativa
foi em vão. Muito embora tenhamos ficado em uma cidade
muito acima da média do padrão de vida brasileiro,
os males que a assolam me parecem regra, não exceção
na vida brasileira. Não nos era permitido andar sem seguranças;
Minhas filhas não podiam em hipótese alguma passear
ou brincar na rua; Ir à praia que fica a menos de 100m
de nosso apartamento também era contra a recomendação
do que nos passavam os seguranças e companheiros de clube.
Todo o tempo
que estivemos no Brasil, ainda que livres fisicamente, éramos
reféns psicológicos. Mesmo sendo um ídolo
local, o risco parecia nos acompanhar a cada esquina virada,
a cada momento em que passeávamos. A sombra do seqüestro
ocorrido dois anos atrás com outro ídolo local,
Robinho, nos perseguia por todos os lados.
Assistir
o noticiário televisivo alimentava ainda mais nossos
medos. Por sorte, minhas filhas não entendem muito bem
português. Se entendessem, descobririam um país
em que o crime está por todos os lados: está nas
escolas, está nas faculdades, está no Judiciário,
está no Congresso e está até mesmo na família
do presidente. Imagino o choque cultural para elas, criadas
em um país com padrões morais tão rígidos.
Me ponho no lugar delas e penso como deve ter sido desagradável
esta estadia no Brasil. O que pensavam quando dizíamos
que elas não podiam andar livremente nas ruas? O que
pensavam quando dizia que era melhor não dizer às
amigas que eram minhas filhas? Como entendiam que não
brincar na rua, que não passear em parques e que sempre
andar com aqueles homens que não conheciam era o melhor
para elas?
Minhas filhas
devem ter detestado o Brasil. Foi com muita alegria que receberam
a notícia de que voltaríamos à Alemanha.
Além da segurança, há a questão
da discriminação. Embora etnicamente muito diferente
da população local, minhas filhas sempre foram
respeitadas e nunca vistas com menosprezo.
Aqui no Brasil, onde todas as raças se misturaram e não
dá para saber quem é o que, sofríamos com
um tipo de discriminação inimaginável para
elas: Éramos vistos como anormais por nossa religiosidade.
Por aqui imaginam que negros sofram de racismo na Alemanha,
mas praticam uma intolerância inexplicável por
sermos evangélicos. Ou, como é dito pejorativamente
por aqui, somos CRENTES", palavra carregada de maus juízos.
Dentro do futebol, jogadores como eu que se organizam em grupos
chamados de "Atletas de Cristo" são vistos
com ressalvas, especialmente pela mídia que acompanha
o esporte.
Por todos
estes motivos, levo minha família de volta à Europa.
Pelo meu sucesso e também pelas nossas escolhas, o Brasil
se tornou um suplício para aqueles a quem mais amo. Batalhei
a vida inteira para sair da pobreza e ter sucesso profissional.
Acima de tudo isto, sempre busquei construir uma família
feliz e correta. Hoje, a felicidade de minha família
tem como pré-requisito afastá-las do Brasil. Por
isto que, ainda que com tristeza, faço o melhor para
elas.
Aos meus
fãs, muito obrigado.
Ao Brasil,
boa sorte."
ZÉ
ROBERTO